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cão cansadodorme... 5月14日 anseio teu suspiro lentoAnseio teu suspiro lento, do fundo do teu peito, enquanto meu tormento me deixa, assim, desfeito.
A trégua merecida no meu desejo antigo. balança a minha vida à beira do postigo.
Bate meu coração tremenda pancada. aviva-me a emoção a tua mão pousada.
E sinto no meu peito a compressão fremente do teu seio bem feito, teu coração ardente.
Recuo quase a medo, hesito um quase nada ao som do teu segredo como musica alada.
Tão quase de partida, tormento imenso o meu! Desfeita a minha vida, já tão perto do céu! 1月6日 A Crise
“Merda de crise! Merda de vida! Não há maneira de levantar cabeça…” agora que estava mesmo a acabar de pagara as letras do carro, que a filha terminara os estudos, que já se habituara ao aumento da prestação da casa…vinha a crise! A notícia de primeira página, no diário de borla que lera logo de manhã no autocarro, era assustadora! Nem os ricos escapavam! Até os bancos iam à falência! O que havia de ser dele e da família?! Esfregou as mãos gretadas tentando afastar o frio que lhe enregelava os ossos, apoiado às costas do banco para não perder o equilíbrio. Então não havia de ficar preocupado?! Se até os ricos iam ter dificuldades o que seria dele?! Já na semana passada o compadre, que era motorista do senhor engenheiro, lhe dissera que o patrão havia dias que andava de esguelha. A vida não lhe corria bem. Não havia maneira de acabar o empreendimento que tinha entre mãos à entrada de Sintra. O engenheiro tinha, mesmo, desabafado com o motorista aquando de uma viagem para visitar a amante, que não sabia por quanto tempo se podia dar ao luxo de o ter ao serviço. O banco não lhe queria emprestar o dinheiro para acabar a empreitada e, assim, era impossível recuperar o que já lá tinha investido. E tinha investido quase tudo o que ganhara durante toda uma vida de trabalho. Nem sabia se podia continuar a pagar as prestações do Mercedes da D.ª Arlete. Tinha iniciado a obra por acreditar que o preço do terreno, ainda mais naquele lugar, era uma pechincha. Efectivamente, não tinham faltado interessados, ainda o projecto se encontrava só no papel. E agora…a crise! Com as vivendas já quase todas construídas só conseguira vender uma. Nem tinha sido bem uma venda, tinha sido um contrato de promessa de compra e venda. O Cliente ainda podia se arrepender. Além do mais, tinha prazos para cumprir e já devia muito dinheiro ao empreiteiro que ameaçara parar a obra. Isto tinha-lhe sido dito, com um ar assustado, pelo compadre, na semana anterior. Embora já tivesse ouvido falar da crise na televisão, pensara que era coisa para preocupar ricos, americanos e assim. Já estava habituado a apertar o cinto e não lhe parecia que as coisas pudessem piorar ainda. Afinal, as noticias dos últimos dias tinham-no feito pensar que esta crise era para todos. Desde os banqueiros até aos pobres como ele. Embalado pela marcha do autocarro ia pensando, com os seus botões, o que poderia fazer para se prevenir das desgraças que, inevitavelmente, se aproximavam. Sentia um aperto no coração e a cabeça vazia. “O que é que eu posso fazer?!”. A mulher trabalhava a dias para ajudar ao fim do mês. Ele fazia turno e meio para ganhar mais qualquer coisa. Não tinham férias há três anos. Conseguira acabar de pagar o carro, ao fim de cinco anos, o dinheiro fora inteirinho para pagar o aumento da prestação da casa, o aumento do seguro e o aumento do custo do supermercado. Apesar de a filha ter acabado os estudos ainda dependia deles porque não havia maneira de arranjar trabalho. E agora a crise! “Merda de vida!”. O autocarro chegou ao destino. Aconchegando o trapo que levava à volta do pescoço a fazer as vezes de cachecol, empurrou duas pessoas para poder sair. Dirigiu-se em passo lento para a porta da fábrica já conformado com a situação e a pensar que havia de conseguir ultrapassar mais esta dificuldade como tinha ultrapassado outras. A porta da fábrica estava fechada. Um grupo de colegas discutia animadamente em frente ao edificio. Um cadeado na porta fez-lhe gelar o coração. 3月4日 "O que se leva desta vida"“O que se leva desta vida é a vida que a gente leva!”. Jorge, “o preto”, ouvia a frase do amigo ecoar dentro da sua cabeça enquanto misturava a massa. Cimento, areia, água. Cimento, areia, água. Há quatro dias que tivera a notícia. A mulher outra vez grávida lá na terra distante. “Nhâ térra”. Duas semanas de descanso, ao fim de três anos sem fim trabalhando de sol a sol, e tudo o que conseguira fora engravidar a mulher. Pela oitava vez. Logo agora que o mais novo já começava a ajudar à vida fazendo uns biscates ao senhor Apolinário da venda. Sete paridos, quatro vivos. Os dois mais velhos foram-se logo à nascença, porque Nosso Senhor estava a precisar de anjos. A menina, a única menina, morrera quando já prometia vir a ser uma mulher bonita como a mãe. Aos 8 anos de idade. Um mal que lhe deu e não resistiu. Nem mesmo depois de ser internada, no Hospital Agostinho Neto, lá na cidade da Praia. A “lestada” trouxe consigo a desgraça, na bruma seca que quase cobriu o sol, durante uns dias, com um nevoeiro espesso de poeiras do deserto africano. Nesse dia, no dia em que soube da morte da única filha, não voltou a casa até de madrugada. Deu por si, quando o sol já raiava, na entrada da Vila da Assomada sem saber como tinha lá ido parar. Nunca mais recuperou. Nunca mais deixou de ter aquela moínha dentro do peito. Aquele adejar de asas de corvo na garganta. Aquele aperto nas tripas que lhe turvava o olhar. Pouco tempo depois, resolveu procurar melhor vida noutras paragens, como tantos outros patrícios, fugidos a uma seca cruel que greta as terras e a pele. Partiu para a terra dos “túgas” dos que se diziam seus antepassados. Chegou a Lisboa em pleno Inverno. Sem roupa que lhe aconchegassem o corpo, sem ânimo que lhe alentasse a alma. Andou uns dias de um lado para outro visitando vagos parentes que tudo fizeram para minorar o seu desalento. Andou de porta em porta oferecendo o trabalho dos seus braços nodosos. Uma semana depois, encontrou-se a trabalhar nos arredores de Leiria, sem saber muito bem como tinha chegado àquelas obras, sem conseguir perceber o que lhe acontecera. Passara a ser Jorge “o preto”, o faz-tudo, o pau-mandado do mestre Cristiano. Até que não se importava. Preferia não parar todo o dia porque, assim, conseguia dormir toda a noite, embrutecido, dormente de cansaço, deitado na cama de palha, rodeado de outros oito companheiros igualmente sós. Cimento, areia, água. Cimento, areia, água. Os filhos que quase não tinha conhecido de grandes que estavam. A mulher a um tempo ansiosa e tímida sem conseguir levantar os olhos para ele. Os sapatos novos, reluzentes, que lhe faziam doer os pés. O relógio comprado nos ciganos da Praça de Espanha enquanto fazia tempo para dirigir-se ao aeroporto de volta a casa. Os brincos para a mulher. Única prenda que lhe comprara, com o primeiro ordenado, numa ourivesaria de Leiria. As canetas de tinta permanente para os filhos. O colar de contas para a velha mãe. Na primeira noite nem tivera jeito de saciar o desejo no corpo da mulher. Ficara assim meio sem saber o que fazer. Ela, encostada à parede, no outro lado da cama fingindo dormir. E aquele cheiro de fêmea, pungente, entrando-lhe pelo nariz. Diversas vezes pensou estender a mão e tocar-lhe. Não conseguiu. Acabou por adormecer. Na manhã seguinte acordou abraçado a ela como era costume. Esbateram-se as hesitações. “Nhâ dôci amor”. Grávida novamente. Quando o mais novo já ia nos 10 anos. Os dias correram lestos entre golos de aguardente e visitas aos parentes. Ei-lo de volta. Cimento, areia, água. “Oh! Jorge!”, “Oh! Preto, despacha-me essa merda!”. Já tinha mandado trezentos contos de reis para a conta que o compadre lhe abrira no BCA. Mais cem contos e poderia voltar para a terra e comprar o pedaço de terra onde ao longo dos anos erguera, à força de braços e muito sacrifício, uma pequena casa de três divisões. Talvez até desse para pintar a casita e meter telha. Seria a prova do seu sucesso além-mar. A carta que abrira com sofreguidão caíra-lhe dos dedos, logo à leitura das primeiras letras. Grávida outra vez! Mais valia ter sustido a “sôdade”, mais valia ter engolido as lágrimas amargas diluídas num copo de vinho barato. “Oh! Preto!”. “Já vai”. Mais dois anos, no mínimo, para poder voltar de vez para casa. Mais dois anos a fazer massa, a acartar massa. Cimento. Areia, água. Cimento, areia, água. Braços esticados pelo peso dos baldes, ombros caídos, cabeça baixa, pés tropeçando no chão irregular, lá foi cumprir a sua sina. Ôi Cábu Vêrdi, Bô qu’ ê nhâ dôr más sublími. Ôi Cábu Vêrdi, bô qu’ ê nhâ angústia, nhâ paxõ. Nhâ vída nâce dí disafíu dí bú clíma ingrátu. Vontádi férru ê bô nâ nhâ pêtu. Gôstu pâ lúta ê bô nâ nhâs bráçu. Bô qu’ ê nhâ guérra, nhâ dôci amor. 11月19日 EgiptoO Egipto é um país fascinante. Creio que não é possível entender quem somos (nós os homens, a humanidade) sem ver os vestígios de uma civilização que, sendo mais antiga do que a romana e a grega, nos fascina pela grandiosidade entrevista e pela complexidade social, económica e religiosa retratada nos muitos documentos murais e outros que nos legou. Milhares de anos antes da nossa era (quando os “civilizados” europeus ainda estavam nas arvores…) já os egípcios construíam monumentos que ainda hoje são prodígios de engenharia, tinham uma organização social e económica altamente complexa e até tinham um processo objectivo de encontrar, cada ano, o valor dos impostos que deviam pagar: utilizavam um sistema de avaliar a altura das cheias do Nilo e, com esse factor, calculavam os impostos – ano de muitas cheias (e, por consequência, mais fértil) impostos mais elevados; ano de menos cheias (e, por consequência, menos fértil) impostos menos elevados. A cosmologia altamente sofisticada. O conhecimento do calendário tal como hoje o conhecemos. Uma religião altamente simbólica e complexa. Uma economia organizada. Um sistema de justiça. Actualmente o Egipto (tal como aconteceu com todas as grandes civilizações antigas: mesopotâmia, maias, incas, gregos, romanos, chineses, coreanos) é uma pálida ideia do que foi há 4, 5 mil anos. Os egípcios actuais não se assumem (talvez porque não o sejam…) continuadores da raça que desenvolveu uma civilização complexa e riquíssima cujos vestígios (70% dos quais ainda estão debaixo do chão!) nos abalam pela sua grandeza. Ao longo dos últimos 2 milénios, contingências várias quase varreram da face da Terra uma civilização que atingiu o seu apogeu cerca de 2000 anos antes da nossa era. Hoje resta-nos, ao deambularmos pelas ruas antigas, estreitas e enlameadas do Cairo antigo, de Luxor, de Alexandria ou ao navegarmos Nilo abaixo, visitando pirâmides, templos e túmulos, prestarmos a nossa homenagem a um povo que elevou ao máximo o espírito humano numa época em que hoje nos parece incrível que tal fosse possível. 11月12日 É hoje o dia...Crónica de uma angústia passageira
É hoje o dia. Esta noite não consegui pregar olho…por mais que tentasse, nada! Tomei dois comprimidos daqueles cor-de-rosa para dormir e…nada! Não consigo perceber o que é que me está a acontecer. Afinal pensava que era um exame de rotina e…logo me havia de acontecer a mim! E agora que começava a ter a vida mais folgada…a filha no fim dos estudo, o carro pago, a casa quase no fim…logo agora! Os gajos disseram “Oh! Jorge, tens que lá ir, ao médico. É aquela coisa da medicina do trabalho…é pá! Aquilo não vale nada e ainda folgas a manhã!”. Tinha de ir…fui! Foram simpáticos, “Oh! Senhor Jorge Silva isto, oh! Senhor Jorge Silva aquilo…arregace a manga! Feche a mão! Abra a mão! Não dói nada. Agora vamos pesar…bem…tem uns quilitos a mais! E essa tensão?! Costuma tomar alguma coisa para a tensão?” e eu, não, não costumo, não me queixo de nada, nunca tenho nada, nem uma dor de cabeça…”E o pai, a mãe? Algum deles teve problemas de coração?” E eu que não, nenhum, que eu saiba…já com uma impressão estranha no estômago, as pernas a começarem a tremer…que raio?! ”Costuma fazer exercício?” Exercícios! Exercícios fiz eu a vida inteira! Um emprego, um segundo emprego, um trabalho de fim-de-semana! Casa para pagar, creche, escola, universidade, as prestações do carro, a doença da mulher, o desemprego da mulher, a explicação da miúda que não atinava com a matemática!...e agora, quando começo a poder respirar…”Oh! Senhor Silva, tem a certeza de que nunca sentiu nada?” Agora é o médico…parece ter um ar preocupado…eu…sinceramente…agora é que começo a sentir! Já tenho as mãos a escorrer água! E a boca seca. Um aperto no peito…querem ver que estes gajos ainda me dão uma sentença má?! Oh! Senhor Doutor, o que é que eu tenho? Estou mal? Olhe que eu começo a ficar aflito! Já nem sei o que pensar! Foi aquela menina… Senhora Enfermeira e, agora, o Senhor Doutor!” E ele que não, que tivesse calma, que podia não ser nada mas que, por via das dúvidas, e porque um homem vai envelhecendo e a idade não perdoa…só para esclarecer…seria melhor fazer mais uns exames. “O Senhor não se importa, com certeza, senhor Silva, pois não?! ”Não, claro, como é que me posso importar?! “Muito obrigado pelo seu cuidado, Senhor Doutor! Faço o que o Senhor mandar! Ora essa!”. E as pernas cada vez a tremerem mais, a boca seca como um bocado de lixa…o que me havia de acontecer! Logo agora! “Pois segunda-feira, às 9, cá estarei, Senhor Doutor! Ninguém mais interessado do que eu, claro! Muito Obrigado!” e trago o papel, sim senhor. Então não tenho que me preocupar porque fica já marcado o exame? Claro que me preocupo! Já tenho a cabeça a andar à roda e ainda hoje é 6ª feira! Como é que vou conseguir chegar a 2ª?! O que vou dizer à mulher? Como é que vou trabalhar neste desatino, com este aperto no peito? E domingo, como é que vou ter estômago para ir ver o Benfica com o cunhado? Valha-me Deus! Eu que até já me esqueci como se reza…dava-me jeito agora! Nunca mais fui à missa…se calhar é castigo! Andas armado em herói?…Toma que é pr’a aprenderes! Agora lixas-te, pr’a ver como é! Pensas que és esperto? Não és nada! Não podes com um gato-pelo-rabo! Eu que já deixei de fumar há tanto tempo. Eu que não bebo, a não ser um copo de vinho ao domingo quando vou a casa do meu sogro. A mulher que me chateia todos os dias para não pôr muita manteiga no pão, para comer as verduras…logo agora! Estava a pensar que, se tudo corresse bem, podíamos trocar o carro no Natal…é melhor não…a miúda ainda não terminou o curso…isto agora está mau para empregos…não deve ser nada! É o gajo que resolveu embirrar comigo! Vai-se a ver e o aparelho não está bom…pode estar desafinado! Tou farto de saber de enganos…e o médico, afinal, disse-me que não era nada, era só para ter a certeza….uma dúvida…enfim! É hoje o dia! Não consegui guiar o carro para vir para o Centro Médico. O fim-de-semana foi uma desgraça! Às escondidas, para ninguém ver…até chorei! Um homem não chora, uma merda! Chorei, sim senhor! Chorei com pena de mim! Desta merda desta vida. Um gajo está bem num minuto e no outro…está morto! Ainda tentei disfarçar mas a mulher não se deixa enganar. São muitos anos a olhar-me com aquele olhar de lado, desconfiada. “O que é que tens Jorge? O gato comeu-te a língua?”. Nada, não tenho nada. Larga-me da mão. “Hum…alguma coisa é! Eu conheço-te!”. Lá conhecer, conhece! Trinta e cinco anos! Coitada! Trinta e cinco anos ao meu lado. De mangas arregaçadas. Lutando todos os dias. Embora às vezes…temos tido os nossos dias…as nossas desavenças. É casmurra, por vezes. “Jorge, não deixes os sapatos a meio da casa!”, “Jorge, para de ver esse futebol e vamos a casa da minha mãe que se faz tarde!”. “Jorge a miúda precisa de livros que a escola já começou e tu preferes gastar o dinheiro na pintura do carro!”. Desde que saí do médico que sinto esta dor aqui no lado esquerdo do peito…e parece que vem pelo braço abaixo…e quando subi as escadas fiquei sem fôlego. Afinal devo ter, mesmo, qualquer coisa! O médico não se ia enganar. Para pedir o tal exame, o tal “ecodoper” ou qualquer coisa assim que eu nem percebi bem, deve ter as suas razões. Ontem arranjei um pretexto para não ir à bola com o cunhado e fiquei na cama a fingir que dormia. A Lurdes, de meia em meia hora, vinha, devagarinho, espreitar mas eu fazia de conta que não era nada comigo. Houve uma altura que até dormir mas tive um pesadelo horrível! Estava morto, deitado dentro de um caixão na sala e toda agente ria à volta de mim! Eu morto, a querer falar com eles e eles à gargalhada! Foi horrível! Tive que comer qualquer coisa ao jantar, para a Lurdes não me chatear mais, e voltei para a cama. Não consegui pregar olho toda a noite! O pior é que não podia mexer-me, não fosse a Lurdes acordar e começar com o “Jorge! Porque é que não queres dizer-me o que tens?!”. Finalmente clareou. Levantei-me com o coração apertado e sem vontade para nada. Lavei-me e vesti-me como um morto-vivo. Apanhei um autocarro e cá estou. Hoje é o dia! Cheguei aqui, nem eu sei bem como…as meninas já me conhecem e foram muito simpáticas. Eu quase não consegui dizer ao que vinha. Levaram-me de um lado para outro “faça o favor de entrar…despir…vestir esta bata” e eu, como um zumbi, de um lado para o outro. O médico, rapaz novo e simpático, não me pareceu dar muita importância ao meu caso. “Sr. Silva, de que é que se queixa?” E eu que nada, não me queixo de nada, foi o outro Senhor Doutor…”Então vamos lá a ver…isto não dói nada, vire-se lá mais um pouco para mim…”. Tenho a minha vida suspensa. O meu coração bate como um louco! Se calhar o exame não vai ficar bem…”Volte-se mais um pouco para o outro lado” e eu aqui sem saber o que me espera…pela cara dele não consigo perceber se estou bem ou mal…”Pronto Senhor Silva!”. “Desculpe, Senhor Doutor! Eu não consigo esperar mais…como é que eu estou? Estou muito mal?”. “Nada disso Senhor Silva, não tem nada que o preocupe! Vá descansadinho que eu vou fazer o relatório para o meu colega.” Nem sei o que estou a sentir! Não sei se rio ou choro! A nossa vida está sempre suspensa por um fio…só que às vezes nem damos por isso. Sinto um grande alívio e, ao mesmo tempo, uma grande vontade de gritar. De sair correndo. De beijar toda esta gente simpática que acaba de afastar de mim o que me parecia uma sentença de morte. Não tenho forças para ir trabalhar hoje. Vou para casa. Tenho que repensar a minha vida. 9月4日 enquanto eu puder!Anda uma pessoa aprendendo a vida, uma vida inteira, e nunca sabe nada! Sabe nada! Nada sabe! E quando, de repente, olha para o relógio do tempo…bip, bip, bip…o seu tempo está a terminar! Por favor saia do palco, dê o seu lugar a outro! Comigo, não! Comigo, não! Estão enganados! Já quebrei o relógio, fechei as janelas, desliguei o telefone. O meu tempo não tem fim, estão enganados…eu não me vou embora! Ainda agora acabou de começar esta comédia. Vá, riam, apreciem o meu número! Não se deixem estar quietos nas cadeiras! Levantem-se, saltem, gritem, agitem-se…ou, pelo menos, batam palmas! Riam! Amem-se! Odeiem-se! Façam qualquer coisa…que digo eu?! Vivam, merda! Não se deixem ficar apáticos! Não pensem que o tempo pára se não se mexerem! Ouviram?! O tempo não pára! Façam como eu…embora eu não precise, não tenho porque me preocupar! Eu sou eterno…pelo menos enquanto eu puder! 8月30日 Livro dos Mortos"Glória a ti, Senhor da Verdade e da Justiça ! Glória a ti, Grande Deus, Senhor da Verdade e da Justiça ! A ti vim, me apresento para contemplar as tuas perfeições. Porque te conheço, conheço o teu nome e os nomes das quarenta e duas divindades que estão contigo na sala da Verdade e da Justiça, vivendo dos despojos dos pecadores e fartando-se do seu sangue, no dia em que se pesam as palavras perante Osíris, o da voz justa: Duplo Espírito, Senhor da Verdade e da justiça é o teu nome. Em verdade eu conheço-vos, senhores da Verdade e da Justiça; trouxe-vos a verdade e destruí, por vós, a mentira. Não cometi qualquer fraude contra os homens; não atormentei as viuvas; não menti em tribunal; não sei o que é a má fé; nada fiz de proibido; não obriguei o capataz de trabalhadores a fazer diariamente mais que o trabalho devido; não fui negligente; não estive ocioso; nada fiz de abominável aos deuses, não prejudiquei o escravo perante o seu senhor; não fiz padecer de fome; não fiz chorar; não matei; não ordenei morte à traição; não defraudei ninguém; não tirei os pães do templo; não subtraí as oferendas dos deuses; não roubei nem as provisões nem as ligaduras dos mortos; não auferi lucros fraudulentos; não alterei as medidas dos cereais; não usurpei terras; não tive ganhos ilegítimos por meio dos pesos do prato da balança; não tirei o leite da boca dos meninos; não cacei com rede as aves divina; não pesquei os peixes sagrados nos seus tanques; não cortei a água na sua passagem; não apaguei o fogo sagrado na sua hora; não violei o divino céu nas suas oferendas escolhidas; não escorracei os bois das propriedades divinas; não afastei qualquer deus ao passar. Sou puro ! Sou puro ! Sou puro !”8月17日 oraçãoJesus nazareno morto e ressuscitado como Cristo, Adónis, Osíris Dionísio. Nascido num estábulo, como Horus. Enfaixado, filho de uma virgem sem pecado como Ísis, rainha do céu. Transformou vinho em água, como Dionísio. Deu vista a cegos, ressuscitou homens, como Esculápio. Como Adónis e Átis, foi chorado pelas mulheres e ao terceiro dia ressuscitou, de um túmulo de pedra inventado para cumprir uma professia antiga ecoada por João, o Baptista, filho de outra virgem. Gerado por um velho estéril. Amado por muitos, rejeitado por tantos. Jesus Cristo, ungido, como Mari-Istar, a Grande Prostituta, ungiu o seu consorte Tamuz. Baptizado nas águas do Jordão. Judeu errante. Iniciado em profundos mistérios. Messias relutante. Opositor de fariseus e escribas, companheiro de malfeitores e mulheres da vida. Nazareno de uma cidade inexistente. Encarnação de um deus-que-morre-e-ressuscita. Multiplicador de pães e peixes. Defensor da pureza do tabernáculo. Matador de porcos indefesos. Crucificado sob Pilatos, debaixo de um sol negro de Cocteau. “Eloi! Eloi!” aonde estás? Porque me abandonas? pai-deus Hélios deus-sol. Trágico companheiro de deusa ausente. Átis sem Cibeles, Osíris sem Ísis, amante de Sophia, de Maria de Magdala. Tornado filho de deus por possessão mágica da divindade. Assistido por mulheres. Pregado num velho símbolo osiriano. Levanta-te e esconjura! o que virá depois de ti, iniciado nos mistérios através do rito do sexo sagrado. 8月3日 Desencanto
Vou ver se estico o poema Na esperança que apareças Vou assobiar para o alto Ainda que não mereças
E depois, de madrugada Ao raiar do sol dourado Vou fingir que te não vejo Vou virar-me para o lado
Vou tentar morrer depressa Para que o vento que passa Leve a história desta peça Morra o homem, fique a taça 6月4日 fim de tardeSentado na esplanada do restaurante Piazza di Mare, à beira Tejo, em Belém, leio “Aprender com as coisas – uma iniciação à filosofia” de Stephane Ferret, enquanto ouço, vagamente, Louis Armstrong. O dia está cinzento e frio mas o rio corre, como sempre, aqui ao lado, na sua incessante caminhada para o mar. A esplanada está cheio de gente, maioritariamente jovem, que empresta ao ambiente um ar sorridente. Algumas famílias demoram-se no almoço ritual de domingo impacientando as crianças que se refugiam na imaginação para escapar ao castigo de estarem sentadas em frente de um prato com comida fria que não lhes desperta o mínimo apetite. Corajosos passantes fazem jogging ou passeiam as bicicletas no passeio que bordeja o rio. O ruído geral é aconchegante e embalador. Mais um solo de Armstrong interrompe a sua voz rouca. O empregado brasileiro pergunta-me se quero “um cafezinho”. Quero “um cafezinho”. Ao levantar a cabeça para lhe responder, reparo numa mulher bonita que se encontra sozinha duas mesas à frente da minha. Olha, pensativa, o fumo que se evola do Marlboro que segura entre o indicador e o médio da mão direita pousada na mesa junto a uma chávena de café vazia. Devemos ser os únicos que não estamos acompanhados na esplanada do Piazza di Mare. Sente o meu olhar. Volta ligeiramente a cabeça e olha-me. Os olhos transmitem algum alheamento e solidão. Volta a olhar para o fumo do cigarro que o vento fresco faz desaparecer assim que nasce. Um copo tomba numa mesa que não identifico e estilhaça-se com o ruído característico de vidro a partir-se. Uma gargalhada sobrepõe-se ao ruído de fundo. Apercebo-me de que há já algum tempo interrompi a leitura do meu livro. Volto os olhos para a página, tentando reatar o fio à meada. Estou bem. Estou estranhamente bem. Gosto de estar aqui rodeado de gente que não conheço, envolvido nesta apaziguadora mistura de vozes, ruído e música jazz em fundo. “O que sabe do seu vizinho do lado?” li há pouco no início do capítulo “Os outros”. “Seja qual for o alcance dos seus meios de investigação, há uma coisa, no entanto, que jamais poderá saber do seu vizinho. E essa coisa é a sensação de ser ele.” Escreveu Ferret, um pouco mais abaixo. “A subjectividade não está no corpo do mesmo modo que o leite está no frigorífico”. Sobressalto-me com a chegada do “cafezinho”. Sorrio, aparentemente, sem razão. Começou a cair uma fina chuva que provocou a debandada das pessoas sentadas fora da protecção dos guarda-sóis. Olho à volta. A solitária de há pouco já não se encontra presente. O Cristo-Rei, ao longe, no extremo da Ponte, começa a diluir-se na neblina. Tomo consciência de que mantenho o sorriso no rosto. Volto ao livro. Fim de tarde de domingo junto ao Tejo.
3月25日 Comentário a um post do filho no blog dele(http://spaces.msn.com/members/Any4t4/)Prometi deixar um comentário. Já o fiz de modo sintético e minimalista. O tempo e a disposição não permitiram mais. Hoje, tranquilamente, venho cumprir o prometido. Talvez não da melhor forma, não um comentário breve. Não um comentário ao que postaste por aqui mas um sentar-me ao teu lado, com os pés na água como poucas vezes tenho tido oportunidade de fazer. O eco de muitos silêncios proíbe-me a abordagem sintética tradicional nestas circunstâncias. Vou falar olhando o horizonte como se para mim falasse, falando contigo. A vida, no seu sentido lato, parece, muitas vezes, redonda. Circular. Começando num ponto e retornando a ele após um largo périplo, sabes? Li, cuidadosamente, os teus textos e os comentários que suscitaram. Voltei para trás no tempo e vi-me, repentinamente, na fase da vida de todas as dúvidas. De todas as incertezas. De toda a aprendizagem. Na idade em que tudo parece simultaneamente simples e complicado. Fácil e impossível de atingir. Todos os seres humanos, julgo, atravessam essa fase necessária ao seu crescimento como entes conscientes e pensantes. Uns ultrapassam-na e esquecem-se dela; outros deixam-se ficar, tolhidos de incerteza e dúvidas, hesitando, permanentemente, no caminho a seguir; outros, ainda, porque distraídos com os múltiplos compromissos de vida só a recordam quando ouvem o eco das suas dúvidas nas palavras dos que lhes estão próximos. Quiçá alguns nunca tomam conhecimento delas e vivem vidas ruminantemente apáticas e aparentemente felizes. Hoje, ao ler o que tens escrito por aqui, pensei que este circulo, melhor, esta espiral que liga e separa os que estão no principio da sua vida consciente e os que se aproximam da fase de entrega do testemunho é constante, perene e infinitamente repetida ao longo de toda a existência da humanidade. Desde que há maneiras de transmitir o pensamento de geração em geração que a humanidade possui registos dessa necessidade de conhecer e ajuizar. Vou tentar socorrer-me de alguns desses registos ancestrais para ilustrar o que te digo. Não pretendo ensinar-te nada. Nada é possível ensinar. Quanto muito pode ajudar-se as pessoas a descobrir, ou redescobrir, o que já existe no seu íntimo. Esse o verdadeiro conhecimento. O conhecimento de si próprio e através dele, desse auto-conhecimento, o conhecimento dos outros. Aqui vou socorrer-me de uma frase que, como as que se irão seguir, peço emprestada aos pensadores, filósofos, artistas, místicos ou cidadãos comuns que desde a antiguidade grega e romana (berço da cultura ocidental) nos legaram para que pudéssemos reconhecer que as grandes interrogações existenciais são eternas e recorrentes. “Nosce te ipsum” conhece-te a ti mesmo tradução latina de uma inscrição grega que existia no templo de Delfos. Eis a primeira prova de que é verdade o aforismo latino “Verba volant, scripta manent” (as palavras voam, os escritos permanecem). Do primado da palavra escrita, um salto de séculos, até ao pensamento “Cogito, ergo sum” (penso, logo existo) como escreveu Decartes no seu conhecido Discurso do Método. No silêncio observas e te interrogas. Assim aprendes os outros e a conheceres-te melhor. No entanto, é preciso ter cuidado porque cada um dos seres que encontras no teu caminho é um ser único e individual. Nem sempre é possível generalizar. Nem sempre é verdade a frase com que Eneias se referia à perfídia dos gregos “ab uno disce omnes” (por um aprende a conhecê-los todos). É necessário conhecer para amar. “Ignoti nulla cupido” (não se deseja o que não se conhece) como muito bem sabia Ovídio. É lícito interrogares-te acerca do belo, da verdade, da vida. As grandes questões do pensamento são uma constante na preocupação das pessoas que pensam. Posso dizer-te, porem, que é possível ultrapassar essa fase sem conseguir respostas absolutas. Embora esteja solidário contigo na procura da resposta às grandes dúvidas existenciais porque, tal como escreveu Terêncio “homo sum: humani nihil a me alienum puto” (sou homem, nada do que é humano me é estranho), muitos anos de vida nos separam. Os suficientes para sentir algum apaziguamento em relação às minhas inquietudes. Já Tácito reconhecia que “Omne ignotum pró magnífico” (tudo o que não se conhece é tido por magnífico), não admira, pois, que sintas uma irresistível atracção pelo que desconheces. A dúvida acerca da satisfação com a tua vida, com as escolhas a fazer do caminho a seguir, com o modo como consomes a tua passagem pela Terra, necessariamente limitada no tempo, é absolutamente legítima. Penso que a melhor resposta às tuas interrogações será poderes adormecer, todos os dias, com um sorriso nos lábios e em paz contigo. Deves tomar nas tuas mãos o teu próprio destino. Ninguém, por muito que goste de outra pessoa, pode viver a vida por ela. Pode e deve seguir-se uma orientação de quem nos quer bem. Nunca nos devemos submeter, acriticamente, às imposições dos outros e, muito menos, utilizar essa circunstância para justificar os nossos fracassos e insuficiências. Não esquecer nunca que “labor omnia vincit improbus” (o trabalho preserverante vence todos os obstáculos), que “in médio stat virtus” (no meio termo está a virtude), e que “est modus in rebus” (em todas as coisas há uma medida – que é um conselho de moderação). Há um tempo para tudo ao cimo da Terra. A contemplação tem o seu lugar, a meditação o seu espaço. Não nos devemos esquecer da acção. De nada serve tentar descobrir os segredos eternos e morrer de fome ao fazê-lo. Voltando, uma última vez, aos antigos romanos “primum vivere, deinde philosophari” (primeiro viver, filosofar depois). Não achas que está a ficar frio?! Será melhor irmos para dentro… Veneza e o Carnaval VenezianoVeneza esconde-se nas brumas, que pairam sobre os canais, nas noites de Inverno. Os seus seis bairros antigos (sistieri), irmanados pelo silêncio apenas interrompido a espaços por um leve murmúrio de água. A cidade, construída sobre bancos de lama nas aguas da laguna, manteve-se quase imutável nos últimos três séculos ultrapassando, incólume, todas as adversidades, incluindo duas guerras mundiais, e contrariando os maus augúrios que preconizam, de tempos a tempos, a sua desaparição nas águas do Adriático. Veneza viveu dias de esplendor como potência naval e entreposto comercial. Viu, em tempos recentes, os seus conventos transformados em centros de restauro, os seus palazzi em hotéis e apartamentos e os seus armazéns em galerias de arte e museus. Sofre, anualmente, a invasão pacífica de mais de 14 milhões de turistas que afastaram os venezianos, impedidos de poder pagar as altas rendas que tal fenómeno produziu, para o território continental e para as cidades circundantes. Os seus palácios mais belos foram adquiridos por multinacionais e estrangeiros ricos. A população residente passou, em cerca de 40 anos, de 150.000 para apenas 68.000. A população envelheceu porque os jovens passaram a viver na vizinha cidade de Mestre e nas aldeias e pequenas cidades à volta. Veneza foi construída sobre mais de 100 ilhotas no centro da laguna pantanosa. As dificuldades que tal facto criou obrigaram os venezianos a desenvolverem originais e inovadoras técnicas de construção recorrendo a pedra impermeável assente em alicerces de larício e estacas de madeira imersas nas águas e cravadas na sólida camada de “caranto” (argila comprimida) do fundo da laguna. Nos primórdios da criação da cidade, as casas venezianas foram evoluindo para enfrentara as exigências e necessidades de uma cidade sem estradas. As fachadas viradas para os canais apresentam, geralmente, uma bela decoração enquanto que o lado oposto, normalmente acessível por uma pequena praça ou ruela estreita, apresenta um aspecto mais simples e despretensioso. Um palazzo típico (também designado “Ca”) apresenta uma estrutura em três andares albergando o rés-do-chão, normalmente, a cozinha, os armazéns e os escritórios que eram usados para os negócios. O primeiro andar (piano nobre), em geral profusamente decorado, estava reservado para a recepção das visitas enquanto que, no andar superior habitava a família. As águas furtadas serviam de morada à criadagem. Devido a ligações comerciais entre Veneza e Constantinopla, capital de Bizâncio, a influência oriental na arte veneziana é mais duradoira e expressiva do que no restante território italiano. Tal influência faz-se sentir, principalmente, na iconografia religiosa com predominância do mosaico e de dourados. Desde o século XIV com Paolo Veneziano, passando pelo século XV e XVI com Ticiano, Tintoreto, Bellini e Paolo Veronese, até ao século XVIII com Canalleto, Giandomenico Tiepolo e Francisco Guardi, Veneza fez-se representar, por direito próprio, na História da Arte Mundial. Cidade com ruas de água, tem nos seus barcos uma forte imagem de marca. Mesmo quem não conhece Veneza identifica facilmente a silhueta assimétrica das suas gôndolas, belamente decoradas, construídas com mais de 280 peças de madeira. O comum emprego do autocarro como transporte colectivo é, em Veneza, substituído pela bem mais aventurosa utilização do vaporetto. No século XI o Carnaval veneziano tornou-se importante e conhecido. A degradação dos costumes e os exageros cometidos ao longo dos dois meses de pândega que constituíam o Carnaval levaram ao seu declínio em meados do século XVIII. Em 1979 renasceu das cinzas sendo, hoje, um dos cartazes mais conhecidos e apreciados da cidade dos canais. Dez dias de festa são pretexto para o desfil diário de belos e sumptuosos trajes e máscaras pelas praças e canais da cidade e atraem mais de 100.000 visitantes que, na sua maioria, participam usando máscaras venezianas e trajes alugados. A produção e venda de máscaras tornou-se uma actividade largamente praticada em Veneza atingindo primores técnicos e estéticos inigualáveis. Veneza é uma cidade mágica e bela durante todo o ano. No Carnaval acresce ao seu encanto natural a beleza dos trajes e máscaras que povoam as suas belas praças e canais emprestando um ambiente romântico e fora do tempo a uma paisagem já de si carregada de simbolismo e estranha beleza única no mundo. 1月16日 outra vez o amor...
(resposta a uma querida amiga) ...o amor não é uma loja de conveniência! Não deve ter lógica, não deve ser arrumadinho. Deve ser mordido e saboreado sem barreiras. "que seja eterno enquanto dure". Tudo o mais pode ser confortante, simpático, politicamente correcto, socialmente bem visto, mas...deixa um gosto a pouco na boca e uma latência na alma que clama por mais. Que pede risco, gozo sem barreiras. Que não pode ser planeado, controlado, medido. Cada minuto, cada segundo, vale por uma eternidade. Nunca se pode perder porque nunca se pode controlar, possuir. É ele que nos possui a nós. Nos enlouquece e faz doer. Desatina, sacode. Faz-nos sentir vivos! Concordo contigo. Faz falta viver arrebatadamente, nem que seja por breves momentos. São esses breves momentos que nos acompanham na vida, que nos apaziguam na morte. Não o amor romântico que imagina e diviniza o ser amado mas o amor que se faz com as mãos, com a boca, com o sexo mas, também, com as palavras. É o amor inconveniente. O amor que destrói e recria. Que faz correr o sangue loucamente. Bater o coração até doer. Quem nunca o sentiu, nunca soube o bom que é ter nascido. O que é bom Viver!
1月9日 novo anoTempo de bons propósitos e de renovadas esperanças. Os "inícios" e os "fins", por muito criação do espírito humano que sejam, dão azo a momentos de balanço e consequente análise valorativa do que "se fez" e "não se fez" e da sua relação com a ética, a moral e a deontologia. Quase sempre, nas mentes de boa vontade, a necessidade/esperança de fazer melhor é prevalente. Assim se renovam os votos por uma vida melhor que, fatalmente, têm uma vida efémera e condicionada ao próximo "fim/início" onde tudo começa de novo. Filosofias à parte...desejos de um Optimo 2007 a todos os Amigos! 12月6日 o nó cego...estou para aqui enleado neste fio sem fim da minha vida tentando, com os dedos dormentes, desfazer os nós que ao longo dos anos se foram formando, quase sempre sem razão. Não que me sinta preso. Não que me sinta atado. Longe disso. É mais uma tarefa que é preciso fazer de vez em quando. Nem que seja para ver até onde vai este fio quando se consegue esticar. Já vai longe, o fio...melhor será refazer os nós e deixar-me ficar, por aqui, uns instantes, brincando com a ponta do fio da minha vida por entre os dedos dormentes... 11月3日 do amor e outras coisas...o amor, o amor que se faz com os dedos, com a respiração, com a cabeça e também com o sexo, dá-se. O amor que está por debaixo da pele, que não precisa justificações nem identidades, dá-se. Porque por muito que se dê, sobra. É usado e não se gasta. Está fora do tempo e transcende o pensamento que castra. Limita. Deixa a pele falar. Sente o cheiro. Respira. Eis o arrepio que chega e te preenche. Sentes nos dedos que é assim. Fechas os olhos e deixas fluir o sorriso. Sentes com todos os poros. Esse amor dá-se, não se troca nem se vende ou empresta. Dá-se. 10月26日 LuandaLuanda. A baía de Luanda, vista de longe, é bonita. De perto, podem ver-se as cicatrizes de muitos anos de desleixo e a sujidade que se espalha, um pouco, por toda a cidade. A marginal, vista de longe, apresenta uma curva graciosa e um perfil com ritmo visual agradável alternando construções coloniais de baixo perfil com algumas torres que pontuam a paisagem sem a descaracterizarem em demasia. De perto, nota-se a falta de manutenção de grande parte dos edifícios e as crateras que decoram o pavimento da avenida e das ruas que lhe estão adjacentes. A ilha de Luanda, que continua a curva da baía para sul, tradicional lugar de lazer por excelência, durante a época colonial era coutada dos mais ricos e de alguns cooperantes estrangeiros. Actualmente luta por manter o estatuto que já possuíu tentando disfarçar as vidas amargas que por lá subsistem em barracas degradadas, por entre os restaurantes e discotecas frequentados por quem tem capacidade económica para o fazer. A baixa da cidade deixa antever, ainda, o que foi uma cidade ribeirinha bonita e cheia de vida. O transito permanentemente congestionado, as contínuas buzinadelas e as manobras suicidas dos condutores, os peões que arriscam a vida atravessando as ruas, inesperadamente e em todas as direcções, tornam a circulação na cidade caótica e perigosa. Há ruas onde se nota um esforço de reconstrução de alguns prédios degradados ao longo de anos de abandono e mau uso ao lado de outros esventrados, corroídos, onde inúmeras peças de roupa pendentes das janelas, crianças ranhosas em perigoso equilíbrio em janelas e varandas em ruínas e alguns vasos com plantas, desmentem a hipótese de serem desabitados. A impressão que se tem ao deambular pelas ruas da capital de Angola é a de nos encontrarmos no centro de um formigueiro gigante a que alguém, maldosamente, deu um tremendo pontapé. A confusão, a desorganização, a movimentação caótica de carros, motas e pessoas não tem paralelo nem nas ruas mais desordenadas de Istambul, Cairo ou Nova Deli. Luanda edificada para albergar 600.000 habitantes dá guarida, actualmente, ao que se supõe ser uma população de quatro milhões e meio de habitantes. Durante a guerra civil de 30 anos, as populações das cidades das províncias e as populações rurais de todo o território angolano flagelado pela guerra, refugiaram-se na periferia da cidade de Luanda construindo, de um modo absolutamente aleatório e sem quaisquer regras urbanísticas, milhares de barracas que, em um movimento centrípeto lendo acabaram por envolver a cidade e ligar-se ao tecido urbano existente. Os bairros de lata assim criados, os Musseques, não têm, evidentemente, quaisquer infra-estruturas de saneamento básico. A inexistência de esgotos, água canalizada, recolha de lixos, o desprezo pelas linhas de água, a falta de pavimentação das ruelas, transformaram os Musseques em locais absolutamente inóspitos, poluídos e perigosos para a saúde pública. As chuvas tropicais transformam-nos em lamaçais durante o cacimbo, na estação mais seca, nuvens de poeira vermelha pairam, continuamente, sobre tudo e todos. Não admira que a cólera, a febre tifóide, o tétano, as diarreias amibianas e a tuberculose, para não falar das doenças de transmissão sexual, grassem por todo o lado. As condições sanitárias em que vivem as populações dos Musseques e, mesmo, algumas pessoas na cidade, estão abaixo do mínimo exigível para qualquer ser humano. Lixeiras a céu aberto onde fumegam montes de detritos diversos, latas vazias, plásticos, restos de comida, dejectos, sapatos velhos, detritos vários vivem paredes-meias com bancas improvisadas onde se vende de tudo desde electrodomésticos made in china até comida. A mortalidade estimada até aos 5 anos de idade (dos nados vivos…) é de cerca de 250 por mil nascimentos. A esperança média de vida anda à volta dos 42 anos… Crianças, centenas de crianças andrajosas, brincam, alegremente, no meio da mais degradante sujidade sem se dar conta dos perigos que corre a sua saúde. A hepatite A, B e C, a SIDA, o paludismo, a tuberculose e outras infecções pulmonares, a cólera, o tétano e outras patologias que quase já não constituem perigo para outras zonas do mundo mais afortunadas (poliomielite, sarampo, varíola, etc.), continuam a ceifar vidas em Angola. Luanda está povoada de negros das mais diversas etnias vindos dos quatro cantos do território fugidos da guerra e à procura de uma vida melhor. Alguns portugueses, brasileiros, belgas, espanhóis e os recém-chegados chineses, pontuam de cor mais clara os diversos tons de castanho da grande maioria da população da cidade. Luanda não tem transportes públicos do estado. Um regime que se apregoa próximo da ideologia comunista deixa à iniciativa privada o transporte urbano dos seus cidadãos. A necessidade aguça o engenho e a falta de estruturas cria estruturas de substituição. A ausência de carreiras urbanas regulares de autocarros, a não existência de metro ou transportes correlativos levou ao aparecimento das “latas”, velos Toyotas Hiace, alguns deles a cair de podres, pintados de azul claro com tejadilhos brancos ou beje, conduzidos por dementes acompanhados por ajudantes que, para além de indicar os possíveis lugares de destino da estranha viatura, ajudam a acomodar os inúmeros passageiros que, por 50 quanzas e contrariando as leis da física que postula a impossibilidade de dois objectos materiais ocuparem ao mesmo tempo o mesmo lugar, se conseguem enfiar, às dezenas, no exíguo espaço da carrinha, acompanhados por caixas, malas, embrulhos e, até, galinhas! Ei-los que partem ziguezagueando loucamente pelas faixas de rodagem, pelas bermas, por todo o lado, buzinando desenfreadamente, travando e acelerando que nem possessos, no afã de distribuirem os seus muitos clientes pelos respectivos destinos e voltarem, em movimento perpétuo, inúmeras vezes, a percorrer os trajectos que lhes estão destinados. Assim ganham a vida, esforçadamente, centenas de luandenses, prestando um serviço à comunidade e substituindo-se aos inexistentes transportes públicos na transladação de milhões de patrícios pelas estradas e caminhos poeirentos e escavacados. É vê-los, do nascer ao pôr-do-sol, atravessando em correrias loucas pelas estradas, caminhos, ruelas, praças e becos de uma Luanda trepidante e barulhenta. As gentes de Luanda não são especialmente bonitas. São pessoas sofridas que se habituaram a tornear os obstáculos que a vida lhes apresenta continuando, teimosamente, a tentar levar a vida com a normalidade possível esperando, com paciência e resignação de quem já viu muita desgraça, que a vida lhes sorria. Afinal estão vivos, apesar da guerra e da curta esperança de vida, das misérias e das dificuldades e a baía de Luanda, a marginal, a ilha de Luanda, as águas azuis do Atlântico sul continuam a ser imagens que aquecem o coração. Angola é o país mais privilegiado em riquezas naturais do continente africano. Anos de colonização, guerra, corrupção e malbaratação de meios, inépcia e falta de capacidade de organização, ausência de planificação e trabalho profícuo e eficiente, fizeram de tal realidade uma simples miragem de um futuro melhor. Começa, no entanto, ao fim de 3 anos de paz, a vislumbrar-se alguns indícios de que o poder, há tantos anos instalado, parece disposto a tentar recuperar o tempo perdido iniciando um processo, necessariamente difícil e moroso, no sentido de dar um novo rumo a um país que tão bonito e com tantas potencialidades. Percebe-se que a pressão exercida pelos investidores internacionais atraídos por uma económico que já iniciou um crescimentos explosivos, é incentivo importante ao esforço de organização necessário para retirar o país e o seu povo sofrido do estado calamitoso em que o colocou o destino, e a inépcia dos homens. Ouro, petróleo, diamantes, terras férteis, clima tropical, praias magníficas, ilhas paradisíacas, abundância de caça e de peixe, permitem ter fundadas esperanças de que, havendo vontade, engenho e arte dos homens e mulheres angolanos, não faltarão os meios. No entanto, cerca de 15 milhões de habitantes num território 14,5 vezes maior do que Portugal, terras abandonadas há anos, estradas, pontes, cidades destruídas, populações deslocadas, minas de guerra aos milhões em parte incerta, condições sanitárias deploráveis em grande parte do território, fazem desta circunstância uma mais valia muito relativa… Há que fazer um esforço gigantesco nos próximos 10, 15 anos para que todas as potencialidades do imenso e belo país que é Angola possam tornar-se numa realidade.
10月10日 ora muito boa noite!Chegou a hora de efectuar um balanço do que tenho feito, até ao momento, neste espaço e perspectivar o futuro. Iniciei o blog, de um modo despretensioso, há muitos meses já. Sem nenhuma ideia definida nem grandes expectativas. Como quem emite um grito na vaga esperança de obter um eco. Na pachorrenta espera de que o som embata em qualquer obstáculo e volte. Como os morcegos fazem para poderem guiar-se na noite, ou os golfinhos quando pretendem comunicar segredos. O som foi e…voltou! Voltou sob a forma de palavras de carinho, amor, amizade. Sentimentos tanto mais altruístas quanto a confirmação de reciprocidade não seria facilmente verificável. Anónimos. Despretensiosos. Reconfortantes. Gostosos. Importantes. Mesmo para quem, como eu, não necessita de esconder-se no anonimato da rede para estabelecer laços, para socializar. Aprendi a esperar, com alguma ansiedade, as opiniões dos amigos virtuais aos meus arroubos de inspiração de momento, avulsos, descomprometidos. Aprendi a amar e preocupar-me com as pessoas que antevia por detrás dos nicks. Muitas vezes marcaram o calendário da minha rotina diária sem disso, provavelmente, se aperceberem. Alguns, poucos, conheci-os no “mundo real”. Não ficaram a ter mais importância, para mim, do que os que não tive oportunidade de ver a figura e ouvir a voz, sem interfaces. Uns e outros continuam a fazer parte do meu “universo alargado”. Fazem parte da minha vida. Este tipo de sentimentos porque têm por suporte situações novas são, muitas vezes, difíceis de perceber. Não digo “de explicar” por os sentimentos não se explicam, vivem-se. O rodopio incessante da minha vida tem-me afastado materialmente destes lugares. Nada posso fazer quanto a isso. Projectos urgentes empurram-me de um lado para o outro. Vou. Venho. Raramente fico. Mas, como a canção, “estou aqui”. 9月7日 o tempo...o tempo...a quarta dimensão...a relatividade do instante. o que medeia dois acontecimentos. diferente quando decorre enquanto as coisas acontecem. diferente do que antecede o acontecimento. medido em unidades de tempo, em batimentos de coração, em moeda corrente, em angústia, em medo, em alegria, em prazer ou, simplesmente, em nada. o tempo...esse inimigo de quem o pressegue ou de quem o teme. de quem o não sabe utilizar ou de quem dele abusa. a sempre presente manifestação de kronos esse deus terrível que deu nome à entidade que estica e encolhe com o "tenho tempo", "não tenho tempo". cheguei de londres, parto daqui a algumas unidades de medida de tempo (do breve) para o brasil. não esqueço, contudo, os amigos. aqui fica rasto. dos dedos sem destino pelo teclado. cumprindo a missão de vos dizer "estive aqui". por vocês, para vocês "estou aqui". sempre. 7月22日 as esquinas do mundoAs esquinas do mundo são duas: uma onde quase sempre nos perdemos e outra onde nos encontramos de volta. É preciso virar a esquina certa antes que sejamos estranhos para nós próprios. Uma vez virada a esquina certa, há que parar para reconhecer onde estamos. Re-conhecer. Pressupõe termos lá estado antes. Ou imaginarmos lá ter estado antes. É muito importante o reconhecimento. Empresta-nos uma identidade. Se eu reconheço onde estou, reconheço-me ao lá estar. Ou ter estado. É a continuidade que dá sequência à vida. Não havendo saltos, descontinuidades, não há a angústia do desconhecido. Fica tudo muito mais fácil. Fica mais fácil percorrer os caminhos. Acabo de virar uma esquina. Onde estarei? |
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